Fala Bibliotecário!

Ótima reflexão do meu amigo Tiago sobre a entrevista que ele deu para o Portal do Bibliotecário.

Fala Bibliotecário! é um espaço democrático para reflexões, pensamentos e ideias. Para participar entre em contato pelo fale conosco.

Refutando Tiago Amaro, por Tiago Amaro.

Recentemente dei uma entrevista para o Portal do Bibliotecário elencando minha visão sobre a área de Biblioteconomia. Não posso dizer que a entrevista foi um sucesso ou controversa, porque recebi dois feedbacks: um de uma bibliotecária que se identificou com o caso e, outro, com uma bibliotecária que acha que devo “vazar” da área.

O fato é que me peguei pensando desde então nesse assunto. Li e reli a entrevista, e cheguei à conclusão que ninguém melhor que eu mesmo para rever o que escrevi. Não me entendam mal, não estou negando o que disse. Entretanto, o tempo e o pensamento são grandes bálsamos que nos fazem rever posições e sermos, ou pelo menos tentarmos ser mais justos.

Não irei refazer a entrevista. Acho importante que ela esteja lá, pelo menos para mim, como um marco. Mas irei refutar pontos que podem ter sido controversos.

Começo com a perspectiva da nossa profissão. Se é certo que falamos há tempos sobre o futuro da nossa profissão, mais correto ainda seria dizer o quanto ela mudou e se expandiu. Sim, as bibliotecas tradicionais estão aí e continuarão aí. As TICs vieram e não acabaram conosco, ao contrário, nos auxiliam a prestar um serviço melhor para nosso usuário final e, também, deram mais autonomia para ele.

A Biblioteconomia não é mais a profissão do futuro, mas sim a do presente. Porque o futuro se faz no presente. Chegamos a um ponto de fusão entre informação e tecnologia que a humanidade jamais alcançou e temos diversos bibliotecários que estão se aproveitando disso para remodelar suas instituições e seu trabalho. Não ver isso é tampar o sol com a peneira, ou ver o lado vazio do copo. Se esta participação ainda não é a ideal, cabe apenas a nós alterar isso. Mova-se!

Sim, são poucos os profissionais que pensarão fora da caixa. Mais de 40 que se formam (UnB), por que você vai escolher estar entre os 30 “Tiagos” que se acomodarão? Você tem a oportunidade e a chance de remodelar as coisas todos os dias. Talvez não seja da forma que você quer, talvez você não tenha todos os recursos. Mas alguma coisa você tem, então já sabe por onde começar. Mova-se!

Claro que, ainda assim, teremos os bibliotecários que se manterão desmotivados, que não se encontrarão na profissão. Isso é normal e acontece em qualquer canto. Manter-se motivado é essencial.

Mas seria um contrassenso alguém que disse que falhou clamorosamente em se manter motivado dizer para que outros se motivem. Verdade. Sou o rei dos contrassensos e inconstâncias. Mas é fato que ler a minha realidade me deu um gás para tentar alterá-la. Afinal, ainda que tenha um desânimo por conta da burocracia do serviço público, algo eu tenho aqui. Então me apegarei a isso para iniciar projetos aqui.

E para iniciar projetos aqui (ou em qualquer lugar), é extremamente necessário se inteirar sobre a instituição. Talvez minha frase mais infeliz tenha sido dizer que não estou inteirado com as atividades daqui. Qual razão tenho para reclamar se nem o mínimo, que é conhecer meus estatutos, sistemas, etc, eu realizei? Sim, que idiotice.

Falemos sobre a graduação. Continuo achando que, na época, era dissociado da realidade. Torço para que as coisas tenham mudado. Algo que sempre pensei foi que poderíamos encurtar o tempo de curso, mas isso é um papo longo e que requer estudos para saber se é factível.

Pensei também sobre leituras e mentores. Vamos às leituras técnicas. Atualmente estou lendo o “Bibliotecas digitais: saberes e práticas”, “A biblioteca escolar” e “O texto virtual e os sistemas de informação”. Lembra que mais cedo falei sobre manter-se motivado? Ler livros, blogs, artigos, achar um (ou mais) temas que você se identifique e que você possa visualizar projetos sobre eles é essencial. Ah, e toque os projetos em frente! E isso irá auxiliar demais na sua motivação.

Continuo sem mentores, mas pensando em bibliotecários que admiro, posso citar (sem nepotismo) minha irmã, pelas batalhas que trava na coordenação da biblioteca do TCU, Cristian Santos, por sua atuação incansável e seus pontos de vista que me fazem pensar, ainda que não concorde, Yaciara Mendes, por transpor diversos obstáculos para alcançar seus objetivos, Andréa Garcia, por me mostrar que temos que ser leves, independente do trabalho, Janaina Amaro, por amar e se entregar ao que faz (bibliotecária escolar) e me mostrar com exemplos diários que as coisas podem ser diferentes nessa seara, Filipe Soares, porque me força a pensar fora da caixa e rever meus posicionamentos.

Pra finalizar, meu recado para os bibliotecários do Brasil é: persista! É necessário paciência sim, mas sem persistência, sem acreditar, sem batalhar, sem se mover, o máximo que você irá conseguir é dar uma entrevista amargurada. Mas se você pensar, persistir e criar só um pouquinho (todos os dias), você perceberá que a realidade a sua volta muda quando você muda.

“Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”. Autor desconhecido.

Caso alguém queira trocar ideia com Tiago ele disponibilizou o email para contato: tyagu182@gmail.com

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O bibliotecário da presidente: a entrevista

Capítulo 2

A entrevista

Quando cheguei na sala de espera, a primeira pessoa que eu vi foi o Cláudio. Cumprimentei-o e sentei num sofá de couro preto, super confortável. Foi ai que me deparei com o local que eu havia acabado de entrar. Eu estava sentado na sala onde ficava a biblioteca da casa dos presidentes da república, no Palácio da Alvorada.

Era uma sala grande com o piso de madeira. As estantes, também de madeira, ficavam por todas as paredes do quarto. Exceto por uma, onde tinha uma mesa grande de trabalho com uma pintura abstrata, de um artista que não consegui identificar, logo atrás. Imaginei a Dilma trabalhando lá. Fiquei nervoso, será que o no meu dia a dia eu ia encontrar com a presidenta?

Cláudio me convidou para a ver a vista que a biblioteca tinha do jardim. Eu estava tão nervoso, que não tinha percebido que a outra “parede” da biblioteca era, na verdade, uma vidraça, que ia do chão ao teto, a vista era para a piscina e o jardim da casa. Lembro de ter comentado com o Cláudio que a sala aproveitava bem a luz natural  para leitura ao mesmo tempo que protegia os livros da luz direta do sol. Ele respondeu dizendo que Oscar Niemeyer havia previsto isso, bom… quem sou eu pra duvidar, certo?

Consegui relaxar a medida que fui absorvendo o espaço e a beleza do conjunto em que me encontrava. Cláudio aproveitou para me dar alguns toques de etiqueta. Não sabia que tinha tanta cerimônia para conhecer um chefe de estado, devia ter estudado mais, pensei.

Sentamos novamente no sofá e coisa de cinco minutos depois, entra a Dilma, acelerada, com três pessoas atrás dela, uma mulher falando no celular sobre horários de passagens de avião, um homem anotando freneticamente num moleskine preto e outra mulher, em silêncio, tirando foto de tudo que estava acontecendo.

Fiquei tenso. Tentava desviar meus pensamentos lembrando do livro sobre conversas de curiosidade “Uma mente curiosa” de Brian Grazer onde ele fala sobre a importância de ser uma pessoa curiosa e até onde a curiosidade pode nos levar? Tentei pensar na conversa com a presidente do meu país como uma oportunidade para crescer pessoalmente. De qualquer forma existe um nível de nervosismo, afinal era a presidente!

De repente aquelas pessoas que tinham entrado com a Dilma na sala, pediram licença e saíram aceleradamente pela mesma porta que haviam entrado. A fotógrafa, antes de sair, me desejou boa sorte, agradeci com a cabeça. Ouço a voz da Dilma “Pode vir Cláudio!”. Ele me deu um tapa nas costas, levantamos ao mesmo tempo e andamos em direção a mesa. Lembro de percorrer esse caminho olhando para o chão. Sentamos e só então direcionei meu olhar para a presidente.

Dilma cumprimentou Cláudio rapidamente e logo em seguida ele me apresentou.  A presidente ergueu a mão e eu prontamente a cumprimentei dizendo que era uma honra. Calei-me e Cláudio começou a falar da minha experiência profissional. Dilma ouviu pacientemente e quando Cláudio terminou ela agradeceu.

Em seguida a presidente pediu para Cláudio se retirar para poder conversar comigo a sós. Cláudio não havia me falado sobre esse momento, fiquei um pouco apreensivo. Mas ela apenas me perguntou se eu queria café. Eu aceitei e então começamos uma conversa que, para minha surpresa, foi super tranquila.

A primeira pergunta dela foi: o que você gosta de fazer nas horas vagas?

Hesitei por um momento, mas respondi: pedalar. Começamos a falar de bicicleta, competições, mobilidade urbana e outros temas que envolviam a bike. Eu esqueci que estava falando com a presidente do Brasil. Uma lição que eu aprendi com isso tudo é que somos todos seres humanos. As vezes a gente super valoriza uma pessoa por causa das coisas que ela conquistou e não por quem ela é.

Foi uma conversa super agradável e rápida. Terminamos a entrevista conversando sobre as leituras que estávamos fazendo. Lembro da Dilma dizendo que estava lendo um livro chamado “O poder do hábito” de Charles Duhigg, por coincidência eu também estava lendo esse livro, mas citei “Pai rico, pai pobre” de Robert Kiyosaki. Ela ficou curiosa e disse que gostaria de conversar mais sobre esse livro.

Cláudio apareceu logo em seguida para me buscar, a presidente agradeceu a minha presença e retribui a gentileza saindo silenciosamente da biblioteca. Quando a porta se fechou por trás de mim ouvi do Cláudio: parabéns! Você é o novo bibliotecário da presidente.

Dei um abraço no Cláudio e agradeci a oportunidade. Ela retribuiu educadamente e me informou que tinha uma pessoa querendo falar comigo, apontando para uma porta. Perguntei quem era mas ele não quis responder. Quando abri a porta era a fotógrafa que tinha me desejado boa sorte.

Continua…

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Cientista de dados versus Engenheiro de dados

Temos visto muita informação sobre mudanças no mercado de trabalho, nas relações entre empregador e empregado, nomadismo digital e novas profissões. Sabemos que nossa profissão também está mudando. Quais as opções um profissional com o nosso background ou experiência tem?

Cientista de dados x Engenheiro de dados

Ciência de Dados e Engenharia de Dados são 2 diferentes ramos de atuação dentro do conceito de Big Data e as funções de Cientista de Dados e Engenheiro de Dados são normalmente confundidas, principalmente pelos recrutadores. As descrições de posições de trabalho normalmente misturam ambas as funções ou exigem que o profissional tenha os conhecimentos de Data Science e Data Engineering.

Quem é e o que faz o Cientista de Dados?

O trabalho do cientista de dados está relacionado ao uso de capacidades analíticas e técnicas para gerar insights através dos dados. Sendo assim, uma responsabilidade essencial para esse profissional é saber fazer perguntas que precisam ser respondidas: o primeiro passo para investir em um projeto de Big Data é ter um problema para ser resolvido por meio da análise de dados.

Além de fazer boas perguntas, é necessário respondê-las. Para isso, é desejável conhecimentos em estatística, aprendizado de máquina, ferramentas de Data Mining e alguma noção acerca da área de negócios.

Uma das premissas que justificam e dá força à ideia de visualização de dados é que toda análise e perguntas respondidas devem ser comunicadas para a área de interesse, senão para toda a empresa. Trabalhar e dominar alguma das muitas ferramentas de visualização de dados é outra tarefa do cientista de dados.

Ferramentas Cientista de Dados

Um Cientista de Dados pode:

• Utilizar de Machine Learning para otimizar a pesquisa de dados;
• Otimizar de estratégias para alcançar os objetivos de negócio;
• Análise preditiva para prever futuros lucros ou prejuízos no negócio;
• Detectar fraudes ou anomalias na operação do negócio;
• Compreender a razão de variações extremas na análise de dados;
• Através da estatística, prever os próximos cliques de um usuário em um site de compras.

Quem é e o que faz o Engenheiro de Dados?

O Engenheiro de Dados são os responsáveis por fazer o trabalho do Cientista de Dados acontecer: digamos, “ser mais efetivo”. Em linhas gerais, são responsáveis pela arquitetura e infraestrutura de dados.

É um profissional focado em design, construção e manutenção de sistemas para armazenamento e processamento de dados. Tais soluções precisam atender às necessidades da empresa, principalmente no que diz respeito às características do dado com que ela trabalha: que podem representar uma quantidade massiva, ou mesmo serem não-estruturados (como vídeos, o que demanda uma atenção diferente). Por isso, é bastante desejável um conhecimento extensivo em software engineering.

Ferramentas Engenheiro de Dados

Indiretamente, já falamos de algumas ferramentas usadas pelos cientistas de dados nos posts sobre ferramentas de big data analytics e business intelligence. De qualquer forma, aí vão algumas delas:

Um Engenheiro de Dados pode:

• Construir aplicações de larga escala SaaS (Software as a Service);
• Construir e customizar aplicações Hadoop e MapReduce;
• Definir e construir bancos de dados relacionais com arquitetura distribuída para processamento de Big Data;
• Extrair, transformar e carregar (ETL) dados de um banco de dados para outro.

O campo comum entre cientistas e engenheiros

Atualmente, na maioria das empresas, a forma de atuação desses dois profissionais é bem semelhante e quase não há distinção entre eles: muitas vezes é necessário atuar nas duas áreas. Conforme a evolução da área em termos mercadológicos, ficará mais nítida a distinção entre diferentes funções.

Empresas que já investem ou que pretendem investir em projetos maiores de Big Data precisam das habilidades desses profissionais. Muitas vezes precisam buscá-los externamente para conseguir obter os resultados esperados.

Referências: 1 e 2

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O mercado de trabalho mudou, e agora bibliotecário?

Texto inspirador do Ronaldo Cavalheri no Administradores! Como Bibliotecários precisamos estar atentos a essas mudanças. Nossa profissão está mudando porque o mercado de trabalho também está.

No texto vemos que novos comportamentos estão sinalizando que muitas outras mudanças radicais estão por vir. Novos desenhos de relações de trabalho, onde regras mais flexíveis são aceitas. E a importância que o planejamento tem nesse processo. Boa leitura! Deixe sua opinião nos comentários.

Quais são os possíveis impactos dessas mudanças na nossa profissão?

O mercado de trabalho está mudando e você precisa estar preparado

Empresas como o Google, AirBnb e Netflix estão nos forçando a um novo comportamento e sinalizando que muitas outras mudanças radicais estão por vir

Nunca ouvimos falar tanto que é possível trabalhar com o que amamos. Sim, é possível. Mas só amor não entrega resultados. Muitas pessoas têm ideias geniais e querem criar, por exemplo, uma startup bilionária ao se levantar da cama, mas esquecem que só a ideia não é suficiente. O momento econômico conturbado tem deixado a vida das pessoas mais difícil. Muita gente está perdendo tempo reclamando, sem enxergar as oportunidades do momento.

Empresas como o Google, AirBnb e Netflix estão nos forçando a um novo comportamento e sinalizando que muitas outras mudanças radicais estão por vir. As pessoas precisam estar atentas a essas mudanças e, também, entender que devem se preparar para elas. Não basta ser usuário de aplicativos ou consumidor de novas soluções. Estou falando de se reinventar como profissional, estando preparado para um mercado de trabalho alternativo e pulsante. Se o mundo está mudando, por que a grande maioria das pessoas continuam desenhando seu perfil profissional da mesma forma?

É impressionante como muita gente só enxerga possibilidade na velha e obsoleta CLT. Até quando o mercado irá conseguir arcar com essa relação trabalhista onerosa de um sistema falido e engessado? O empreendedorismo se coloca como grande opção para um novo desenho de relações de trabalho, onde regras mais flexíveis são aceitas. Não é cumprir horário que importa, mas sim agregar valor e entregar resultados. E também por que não trabalhar em casa em seu home office ou em espaços compartilhados? É preciso pensar em aliviar a estrutura das empresas e deixá-las mais competitivas.

Antigamente, o profissional passava uma vida inteira dentro da mesma empresa. Nos últimos tempos, eles viraram especialistas e tinham vários empregos na mesma área. Agora, viveremos um período de várias profissões na mesma vida. O mercado precisa de profissionais polivalentes e mutantes, que acompanham o movimento da economia. Você pode trabalhar com o que gosta, mas precisa ter um diferencial. Mesmo em tempos de crise, as pessoas têm acesso ao consumo. Com isso a personalização, a exclusividade e o valor agregado tem sido uma solicitação recorrente dos consumidores. É preciso criar identidade profissional, ter uma linguagem própria e entregar o que os outros não entregam. É preciso enxergar vertentes alternativas e criativas na mesma área de atuação.

Planejamento longo pode ser um tiro no pé. Não dá para perder meses ou anos desenhando uma solução que talvez o mercado não queira comprar. Com as redes sociais, nunca estivemos tão próximos dos nossos clientes. É vital entender as necessidades e propor soluções com foco nelas. É preciso se preparar para entregar mais do que se espera, e para isso é preciso formação. Porém, o modelo de ensino deve ser outro, com aprendizado constante e foco prático. Não é aceitável que um o futuro profissional fique anos sentado na cadeira de uma faculdade para chegar ao final e se perguntar como exercer sua profissão. É inadmissível pensar em uma formação teórica no qual o aluno tem papel receptivo. O profissional precisa ser construído agindo ativamente durante sua formação, vivendo a profissão e criando um olhar múltiplo.

As novas tecnologias têm trazido facilidades. Inevitavelmente a robotização substituirá muitas atividades hoje desenvolvidas pelo homem. Precisamos repensar nossos papeis como profissionais. Só aquilo que é prazeroso e que depende do talento caberá ao ser humano. Estamos chegando em um tempo onde a Economia Criativa aparece em destaque, pois o que realmente vale é o intangível proporcionado pelo capital intelectual. Da mesma forma, ganham forças as economias colaborativa e compartilhada que estabelecem uma relação de “ganha-ganha”, abrindo canais para uma nova forma de pensar onde o ser é mais valioso que o ter.

Sim, novos tempos que exigem novos comportamentos. É hora de se reinventar como o profissional e garantir seu espaço no mercado.

Ronaldo Cavalheri – Engenheiro Civil e Diretor Geral do Centro Europeu – escola pioneira em Economia Criativa no Brasil.

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O bibliotecário da presidente

Capítulo 1 

Muito prazer

Sou Valentim, me formei em Biblioteconomia na Universidade de Brasília (UnB) em 2004 e trabalhei a maior parte da minha vida em órgãos públicos. Brasília você sabe como é, existe muito essa cultura de concursos públicos, estabilidade no trabalho e salários atrativos.

A verdade é que isso nunca me atraiu, nunca gostei da rigidez do serviço público. As dificuldades que a burocracia impõe, leis mal escritas e que dificultam o processo de execução das tarefas, enfim, posso passar páginas falando das desvantagens do serviço público. Mas não vou desperdiçar seu tempo com isso, não se preocupe.

Sinto que para estar nesse tipo de trabalho você precisa ter uma aptidão específica, não é fácil lidar com o público diariamente e trabalhar em um setor tão desvalorizado pela maioria das instituições como as bibliotecas. Falo isso porque vivi essa realidade durante boa parte dos meus 12 anos de carreira.

Mas a vida resolveu me pregar uma surpresa e acabei conseguindo ser indicado para trabalhar na Biblioteca do Palácio da Alvorada. Onde os presidentes do Brasil moram. Isso mesmo, eu tinha a chance de trabalhar na Biblioteca da presidente da república, a época, Dilma Rouseffe.

Fui para entrevista muito ansioso, coloquei a minha melhor roupa, que não era lá essas coisas e fui conversar com uma pessoa chamada Cláudio, responsável pelo setor de documentação da Presidência. A entrevista ocorreu no Palácio do Planalto, onde o presidente trabalha.

Saí cedo de casa porque é complicado achar vagas de estacionamento perto do Palácio. Cheguei com uma boa antecedência e fui direto para recepção me identificar. Embora tenha morado toda minha vida em Brasília, nunca tinha entrado lá. O prédio inteiro é uma obra de arte projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, pé direito gigante, vidros para todos os lados e incontáveis obras de artes espalhadas por todo o prédio.

O Palácio do Planalto é um labirinto, para chegar no local da entrevista, tive que pegar elevadores, escadas e até atravessei uma garagem. Até na Presidência o setor de documentação é um pouco desvalorizado, ficava em um anexo do lado da garagem, para mim um lugar longe de ser apropriado. O lado bom é que no caminho para lá vi várias telas originais do Portinari, confesso que quase me atrasei admirando algumas.

Finalmente cheguei no setor, onde fui atendido por uma secretária simpática que pediu para eu aguardar um pouco. Uns 5 minutos depois o Cláudio me atendeu. Aparentemente uma pessoa tranquila, bem vestida e com uns óculos de aro grosso que transmitia inteligência. Ele me cumprimentou e pediu para eu me sentar.

Conversamos sobre algumas amenidades antes de entrar na entrevista em si. Cláudio elogiou meu currículo, me fez algumas perguntas específicas sobre Biblioteconomia e esclareceu o tipo de trabalho que eu iria desempenhar. Depois disso passamos por todas as seções do setor onde fui apresentado a algumas pessoas, dentre elas mais 3 bibliotecários que faziam serviços de processamento técnico e revisão de trabalhos de acordo com as normas de redação da presidência, uma espécie de trabalho de revisão. A parte mais legal da entrevista foi quando entrei no depósito onde ficavam os presentes que a presidente tinha ganhado ao longo de seu mandato. Presentes de personalidades do mundo inteiro, outros presidentes, grandes empresários e artistas famosos, como Sebastião Salgado e o presidente do Estados Unidos, Barak Obama.

Enquanto via aquelas relíquias que a presidente tinha ganhado, Cláudio me contava um pouco sobre a personalidade dos presidentes, como eles se comportavam no Palácio da Alvorada e principalmente como a gente devia se comportar. Ele falou sobre como o Lula era uma pessoa simples que tratava todo mundo como igual, da cozinheira ao presidente do Banco Central. Falou da Dona Ruth, uma senhora simpática e primeira dama do Brasil durante o mandato do Fernando Henrique Cardoso e também da Dilma, uma pessoa mais introvertida e viciada em trabalho.

Ao final da entrevista agradeci a oportunidade e me despedi. Cláudio informou que entraria em contato assim que tivesse uma resposta mas que eu poderia ficar tranquilo por que eu tinha me saído bem e teria boas chances de preencher a vaga. Ele iria entrevistar mais uma pessoa antes de decidir pra quem ele iria dar o trabalho.

Algumas semanas passaram e eu recebi a ligação. Era o Claudio, me chamando agora para uma outra fase da entrevista. Dessa vez seria no Palácio da Alvorada e a presidente ia estar presente! Eu fiquei alguns segundos sem responder, Cláudio falou aquele “Alô?” e eu respondi, “Ótimo, nos vemos lá, obrigado!”.

Ao desligar o telefone dei um grito de felicidade e depois fiquei anestesiado por alguns minutos. Coloquei um disco do Led Zeppelin bem alto e dancei feito um louco na sala do meu apartamento. Depois de gastar um pouco a adrenalina lembrei de ligar para minha mãe para contar a novidade.

Minha mãe e eu choramos de alegria, ela ficou orgulhosa de mim. Disse que era um cargo incrível, que eu teria a oportunidade de ver a história do Brasil acontecendo ao vivo diante dos meus olhos. Eu nem tinha levado em conta a importância disso, despedi da minha mãe e desliguei o telefone. Estava perplexo e pensamentos começaram a borbulhar na minha mente.

Procurei estudar sobre a presidenta, e o palácio da alvorada, li notícias de diversos jornais, procurei entrevistas para ler, vi vários vídeos no youtube, tudo para chegar lá o mais bem informado possível. Tentei controlar a ansiedade, a entrevista demorou umas duas semanas para acontecer, tivemos que remarcar algumas vezes por causa de compromissos de última hora da presidenta.

Finalmente chegou o dia! Lembro de ter acordado muito cedo. Liguei a tv e fui fazer o café da manhã. Na época eu tinha outro emprego, então já havia avisado que ia precisar faltar naquele dia. Para não gerar expectativa, falei para poucas pessoas que estava concorrendo a essa vaga.  As 10 horas da manhã estava entrando no Palácio da Alvorada, onde um soldado do exército estava me esperando pra me “escoltar” pra uma sala de espera.

Continua…

 

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