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junho 10, 2009

Biblioteca criada por uma ex-doméstica e um vigilante muda a vida de jovens e adultos em São Sebastião

Linda iniciativa que deveria ser repitada em todo Brasil. Parabéns!

Marcelo Abreu

06/06/2009

Era apenas um sonho. E o sonho, feito de letras e magia, um dia virou realidade. Uma ex-doméstica, que sonhava ser enfermeira, e um vigilante, que queria ser biólogo, transformaram a vida daquele lugar. Hoje, naquele espaço ainda acanhado, cabem mais de 10 mil livros. Monteiro Lobato pediu para entrar. Machado de Assis insistiu que também queria se aconchegar. Chegou o computador (sem conexão à internet), a impressora, a televisão e o DVD. Inventaram oficinas culturais e esportivas — tem capoeira, dança e futebol. Tem pintura que vira arte na mão de criança. A cidadania, que ora teimava em dar as caras por aquelas bandas, foi convidada a entrar. A ex-doméstica que parou de estudar aos 14 anos e deixou o interior de Minas Gerais para cuidar das cozinhas alheias no DF finalmente entendeu que a mudança estava ao seu alcance.

Dilma de Fátima Mendes, 44 anos, ensino fundamental incompleto, e Sebastião José Borges, 39, ensino médio também incompleto, viraram heróis num lugar onde heróis só existem na ficção, em desenhos animados. E nem por isso receberam, com pompa e circunstância, título de cidadão honorário de Brasília. Ou qualquer outra condecoração. Não saíram em colunas sociais. Não viraram celebridades instantâneas — um monte de mequetrefe que nada diz e nada acrescenta, mas estampa diariamente capas de revistas e sites igualmente idiotas.


O vigilante e a ex-doméstica passam longe disso. A lógica ali é outra. A matemática se fez assim: uma gente anônima, de todos os cantos do DF, ajudou outra gente anônima e simples, lá de São Sebastião, a 25km da Rodoviária do Plano Piloto. A soma disso tudo resultou em revolução. Não há uma só pessoa daquele lugar que não tenha ouvido falar na Biblioteca Comunitária do Bosque. É a referência da região. O endereço que enche de orgulho o peito dos moradores do bairro. E faz a menina Paula Passos Bueril, de 12 anos, se comover: “Eu venho aqui desde que começou. Depois que eu comecei a ler, tudo na minha vida mudou. Não falo mais errado e a professora disse que minhas redações são muito boas. Sinto que sou outra pessoa”.

Casados, Dilma e Sebastião alugaram um espaço ao lado da residência onde moram e montaram a biblioteca
Hoje, a filha mais velha de um cobrador de ônibus e de uma manicure ajuda outras crianças nas leituras e pesquisas feitas na biblioteca comunitária. Lê historinhas para quem ainda não sabe e diz, com convicção de gente adulta: “É difícil encontrar hoje um estudante que pesquise. Ele vai à internet, pega pronto e leva pra escola. Não desenvolveu nada, nem aprendeu nada”. Dilma e Sebastião se emocionam ao ouvir o entusiasmo de Paula.


E tudo começou assim. Há três anos, a ex-doméstica e o vigilante, casados, dois filhos, perceberam que no lugar onde moravam faltava quase tudo. As crianças da região não tinham onde fazer suas pesquisas escolares. Decidiram, então, que iriam atrás de uma alguma coisa para mudar a realidade do Bosque, bairro de São Sebastião. Pediram. Arrecadaram livros. Com ajuda alheia, alugaram uma sala modesta. Decoraram o lugar com oito cadeiras, um sofá de dois lugares e uma estante. Tudo doado.

Aberta a todos
Espalharam as boas-novas pela cidade. Foram às escolas. Convidaram os alunos. Contaram na rádio e no carro de som que cortava a cidade que ali existia uma biblioteca. A meninada, eufórica, chegou. O adolescente também. Os adultos se encantaram com livros que nunca tinham visto. E a vida mudou. Numa sexta-feira de abril de 2007, o Correio contou, com exclusividade, a transformação daquela comunidade.

Naquele mesmo dia, o telefone da casa de Dilma não mais parou de tocar. “Brasília inteira nos ajudou. Não sei como agradecer a todos”, ela repara, até hoje emocionada. E se lembra especialmente de uma doação: “Era um senhor da Asa Norte que estava indo pro Rio de Janeiro. Ele nos deu mil livros, entre obras de literatura e coleções completas. A cada livro que pegava ele chorava. E nos contava como eles (os livros) tinham sido importantes na vida dele”.

Em uma semana, o pequeno espaço ficou abarrotado de livros. “Ganhamos tantos livros que doamos para quem nada tinha. Mandamos pro interior de Minas Gerais e pra Brasilinha”, diz o vigilante que rodou, em seu fusquinha verde ano 1994, todo o DF recolhendo doações de uma gente tão anônima quanto eles.

A Biblioteca Comunitária do Bosque, a única do lugar onde vivem cerca de dez mil pessoas, escancara a porta às 8h. Perto do meio-dia, fecha para o almoço. Reabre às 15h e encerra as atividades às 19h. Todos são convidados a entrar. Dilma se divide entre os cuidados da sua casa e a administração do espaço. Sebastião, que trabalha a noite toda como vigilante, às vezes nem dorme quando chega. Tem sempre uma coisa ou outra pra fazer na biblioteca ou fora dela. “Quando eu tô andando pelas ruas, os jovens me reconhecem. Me chamam pelo meu nome, dizem que vêm aqui, contam como o espaço mudou a vida deles. Isso é muito gratificante. Não tem preço”, ele constata.

Sonhos reacesos
Além das crianças e dos adolescentes, os adultos também viraram assíduos frequentadores do lugar. Estes, depois que preenchem um cadastro, podem levar os livros para casa como empréstimo. Ninguém paga nada por isso. O cobrador de ônibus Paulo Bueril, 41 — incentivado pela filha Paula, aquela menina que lê historinhas para as outras crianças — criou o hábito da leitura. “Toda semana pego um livro. A gente sempre aprende mais alguma coisa”, ele fala. O prefeito comunitário do bairro, Geraldo Agostinho, 48, ri sozinho: “Nunca se fez uma obra como essa aqui. Todo mundo ganhou”.

Alana, de 6 anos, conta toda orgulhosa: “Aprendi a ler melhor aqui, lendo de verdade”. Jhuly, 9, comemora: “Faço todos meus deveres da escola”. Herbert, 11, encantou-se com a leitura. “A gente viaja sem sair do lugar. É muito legal”, danado, esse menino. Lilian, 10, fala como gente grande: “Nem sei dizer o tanto que eu já aprendi nessa biblioteca. Todo dia descubro uma coisa nova”. E constata, conhecedora das dificuldades do lugar onde mora: “Tudo seria mais difícil se não tivesse esse local pra gente pesquisar e saber das coisas”.

Diante de tanta transformação, Dilma pensa em voltar a estudar. O sonho de ser enfermeira de vez em quando a cutuca novamente. Sebastião se pega lendo Monteiro Lobato. Quando menino, as dificuldades no interior de Goiás eram tantas que a leitura era luxo inacessível. “Eu viro criança, viajo”, admite o vigilante, com os olhos de curiosidade infantil.

E assim, naquele lugar modesto, num lugar ainda mais modesto, uma biblioteca — a única da redondeza — transformou a vida das pessoas. Trouxe um mundo colorido. Permitiu viagens inimagináveis ao redor do mundo para uma gente que mal consegue chegar ao Plano Piloto. Trouxe magia, em forma de letras, que viram palavra e poesia. Tatuou encantamento na memória de quem lê e se extasia. O mais comovente é entender que toda essa história só começou a existir depois que uma ex-doméstica e um vigilante acreditaram que seria possível mudar alguma coisa. Reinventar vidas alheias e as suas próprias. E eles nem viraram celebridades…

POR UMA BOA CAUSA
Quem puder ajudar a Biblioteca Comunitária de São Sebastião com material didático pode entrar em contato com Dilma ou Sebastião. Telefone — 3339-4037

Fonte: Correio Braziliense

2 Comments on “Biblioteca criada por uma ex-doméstica e um vigilante muda a vida de jovens e adultos em São Sebastião

aline
junho 11, 2009 em 8:43 pm

fiquei sabendo de vagas de emprego na biblioteca!
e verdade

Tiago
agosto 7, 2009 em 2:31 am

cara, que iniciativa foi essa, ne? o que nos, como bibliotecarios poderiamos fazer para ajudar?

abraco

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