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Fevereiro 15, 2016

[ENTREVISTA] Bibliotecária Angélica Marques

Bibliotecária de uma Instituição de Ensino Técnico, Angélica Marques conta um pouco sobre como lidar com a comunidade de usuários e suas particularidades. Fala também sobre os projetos inovadores que colocou em prática no Instituto Federal de Brasília fazendo os alunos trabalharem em conjunto em prol da Escola em conjunto com a Biblioteca. 

1. Por que Biblioteconomia?

Terminei o Ensino Médio e pensava em cursar Direito. Contudo, observando um tio advogado, percebi que tanta doutrina e tanta burocracia não era pra mim. E então ficou a dúvida sobre o que fazer dentro das ciências humanas ou sociais. Até que um dia um colega da antiga escola me disse que estava fazendo Biblioteconomia e que o curso era a minha cara. Mais especificamente, ele disse que o curso era para os ratos petulantes que frequentavam a biblioteca no recreio, ou seja, eu. Fiquei super empolgada, prestei vestibular e passei, mas o entusiasmo durou pouco. Fiquei bastante chateada quando entrei, porque não vi aplicabilidade nenhuma no conteúdo do curso. Pensei em largar e tentar outra coisa, mas a situação se inverteu quando consegui um estágio na biblioteca do Centro de Excelência em Turismo da UNB. Foi realmente o primeiro emprego que gostei na vida, pois desde o 16 anos trabalhava na loucura do comércio onde não havia perspectiva nenhuma além de estimular o consumo. Na biblioteca do CET os usuários ficavam muito gratos por serviços simples, como o auxílio a pesquisa e o envio de artigos científicos por e-mail. Além disso, havia muito espaço para criar. Oferecemos, por exemplo, um revisteiro que assim como o jornal, tinha informações diferentes todos os dias, as pessoas passavam suas horas de almoço por lá e se sentiam acolhidas. Daí percebi que os serviços da biblioteca, triviais ou não, podem se tornar muito importante no cotidiano das pessoas.

2. Qual é a sua opinião sobre o futuro da nossa profissão?

O futuro da biblioteconomia se desenha como o de qualquer outra profissão, ou seja, na atualização do profissional. Vejo que muitos bibliotecários estão parados no tempo, já outros acompanham muito bem a evolução do acesso aos meio de informação. Como sou otimista, acredito que estes últimos vão continuar tocando o barco em bibliotecas tradicionais ou em algo que evoluir do streaming. Não concordo com a teoria de que a nossa profissão irá acabar, mas temos que reconhecer a independência dos usuários em relação a nossa existência. Logo, precisamos de biblioteca mais atraentes, que cativem as pessoas, como aquela que tem a cara do dia ou do evento da escola. O que quero dizer é que o futuro já começou. Não adianta ficar olhando lá na frente, tentando incorporar Marshall McLuhan para desvendar o futuro das novas tecnologias. Se cativarmos o público agora, a evolução das bibliotecas acontecerá de forma gradual.

3. Qual foi o seu maior desafio no trabalho?

Com certeza foi montar uma biblioteca em um local extremamente inadequado e sem uma equipe com quem eu pudesse dividir algumas tarefas. Daí tive que me desdobrar para solicitar licitações, descobrir soluções baratas para o mofo, pressionar a compra de livros e de um sistema de biblioteca, perturbar fornecedores irresponsáveis, instalar um mecanismo de ventilação, conseguir que fizessem desinsetização e desratização no ambiente, entender a instituição e criar as normas para o seu mais novo setor, etc. Isso aconteceu assim que eu assumi a vaga de bibliotecário no campus Riacho Fundo do Instituto Federal de Brasília (IFB). Foi um turbilhão de trabalho na minha vida, mas também foi libertador, porque além do aprendizado, consegui envolver cada pedaço da instituição nesse projeto. Foi gratificante ver o pessoal do administrativo, da faxina, os professores, os diretores… enfim todos descobrindo a importância da biblioteca e colaborando para fazê-la acontecer. E quando finalmente aconteceu, veio o reconhecimento dos alunos, dos servidores, da comunidade… Daí não demorou para que chegasse a minha equipe, por qual também batalhei muito a fim de evitar a estagnação do trabalho e que, embora não trabalhe mais com ela, tenho muito orgulho e carinho, porque é composta de pessoas boas, além de muito talentosas.

4. Você trabalha em uma Escola técnica, o Instituto Federal de Brasília, quais atividades as Bibliotecas do IFB tem realizado para chamar os alunos nessa época de Internet, Google, etc?

No IFB temos um público bem diverso. Não é fácil agradar ao mesmo tempo alunos da Licenciatura em dança ou do Técnico em Gestão Pública, sem falar no pessoal do Ensino Médio que tem muito mais afinidade com o Google que com os livros. A solução encontrada para tanta variedade foi investir em eventos culturais, abarcando atrações artísticas, palestras, exposições, oficinas, etc. Para realizar essas atividades é necessário estabelecer parcerias dentro e fora da instituição, do contrario, seria impossível diversificar o conteúdo. O último evento que participei da organização foi o “2° Bibliocultura: inclusão social e cidadania”, realizado no campus Brasília. Houve ampla participação dos alunos e da comunidade externa, porém o mais interessante foi envolver os alunos na construção do evento. Alguns deles participaram da equipe de apoio e puderam acompanhar de perto a complexidade de sua realização, outros expuseram seus talentos ou projetos, como o “Crônicas digitais” em que alunos do “Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio” escreveram um livro e o apresentaram com muita satisfação. Fora dos eventos, também oferecemos oficinas relacionadas a nossa área, pois muitos alunos tem dificuldade para utilizar as Normas da ABNT e acessar o Portal Capes. Tem também o exemplo da biblioteca do Campus Riacho Fundo que promove um cine clube com discussão e tudo mais. Todos esses serviços ajudam a destruir o estigma secular da biblioteca distante, chata e imóvel, mas não dão o retorno suficiente. O trabalho de aproximação com o usuário precisa também ser didático. Desse modo, nos Campi que trabalhei, a biblioteca costuma se apresentar aos calouros e explicar sua utilidade (seus serviços), pois a maioria dos usuários desconhece.

5. Onde você fez sua graduação? O que achou do curso?

Minha experiência com a graduação é semelhante a história sobre a Caixa e o brinquedo relatada por Rubem Alves no livro “Fomos maus alunos”: eu ganhei um presente que não gostei, mas adorei a caixa. Adorei as inúmeras possibilidades que ela oferecia. Não gostei do curso de Biblioteconomia da UnB, porque, embora ele tivesse um viés bastante técnico, suas aulas tinham pouca ou nenhuma praticidade. Nos seminários, as apresentações eram quase sempre sobre as mesmas bibliotecas que, por sua vez, costumavam ser escolhidas apenas por status e por seus salários chamativos. A literatura técnica era cheia de manuais entediantes e mal traduzidos. Eu achei que estava no curso errado, mas no estágio vi que o mercado de trabalho era bem mais interessante. Além disso, eu me identifiquei com a grande caixa chamada Universidade. Afinal, ela estava repleta de disciplinas que eu poderia assistir estando matriculada ou não, sem falar que ainda havia filmes, palestras, grupos de pesquisa sobre filosofia, literatura, políticas de gênero, raça e educação. Foi aí que percebi que o conteúdo da caixa era algo teórico que merecia ser aplicado em algum lugar propício de nossa sociedade, esse lugar era a biblioteca, que na minha opinião é um poderoso instrumento de cultura. Claro que na prática, passei algum tempo chateada por está fazendo um curso que eu realmente não gostava, mas passado alguns semestres comecei a enxergar que a educação autodidata que eu segui me deu a oportunidade de criar. E isso é algo que foi essencial na minha formação como pessoa e como bibliotecária. Além disso, felizmente, não tive problemas em estudar de forma tão livre, pois fui criada em uma família em que a educação precisa necessariamente associar-se a liberdade ou perde sua função de enxergar e minimizar as fraquezas sociais.

6. Você sempre trabalhou dentro da biblioteca? Se não, onde mais? Como foi a experiência?

Sempre trabalhei em bibliotecas, porque foi pela biblioteca que concluí o curso de Biblioteconomia. Não fosse a biblioteca eu teria desistido de ser bibliotecária para ser antropóloga ou turismóloga. Lógico que não é qualquer biblioteca: trabalhei um tempo em uma em que eu passava oito horas por dia inserindo extratos do Diário Oficial da União em uma base irrecuperável; não havia tempo para criar e quando os bibliotecários criavam eram podados e obrigados a realizar tarefas que morriam em si mesmas. Me sentia um hamster correndo dentro de uma bola que girava em seu próprio eixo. Então prometi a mim mesma que por dinheiro nenhum voltaria a trabalhar em bibliotecas que pessoas que não entendem comandam. Na verdade, o que me cativa na biblioteca é a responsabilidade social e cultural que temos. Acredito que com as atividades certas não haverá problema em desenvolver essa missão, pois tudo é uma questão de organização e merchandising.

7. Qual foi o último livro técnico que você leu? Sugira uma leitura técnica.

“A casa da invenção”, de Luís Milanesi. Não é bem um livro técnico, mas é crítico e estimulante, principalmente para quem trabalha em bibliotecas públicas ou escolares.

8. Qual livro você está lendo agora? Sugira uma leitura para lazer.

Estou lendo “Os cadernos de Malte Laurids Brigge”, de Rainer Maria Rilke. Sugiro “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada”, de Gabriel Garcia Marquez (realismo fantástico da melhor qualidade possível).

9. Quem é seu mentor na Biblioteconomia, por que?

Sem dúvida Ranganathan, porque a biblioteca é uma instituição social que precisa ser mutante, pois se não crescer perde o seu leitor. E se perder o seu leitor, deixa de existir. Simples e prático.

10. Mande um recado para todos os bibliotecários do Brasil.

Fazer catalogação é necessário e temos que ser bons nisso, mas fazer uma catalogação perfeita para alguém que você mal conhece é um tanto quanto contraditório. Só existe um jeito de conhecer aquele a quem você destina o seu esforço e esse jeito é saindo da toca. Sendo assim, se relacione com sua instituição e com seu usuário, faça parcerias. Se não tem responsabilidade dentro de uma instituição, crie você mesmo e estenda a biblioteca para além de seu espaço sempre tão bem delimitado. O resultado dessa ousadia será grandioso. Lembre-se: bibliotecários sociopatas e mal-humorados são alegorias, ou seja, na vida real ninguém leva a sério.

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