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agosto 24, 2016

O bibliotecário da presidente: a entrevista

portal do bibliotecario, o bibliotecario da presidente

Capítulo 2

A entrevista

Quando cheguei na sala de espera, a primeira pessoa que eu vi foi o Cláudio. Cumprimentei-o e sentei num sofá de couro preto, super confortável. Foi ai que me deparei com o local que eu havia acabado de entrar. Eu estava sentado na sala onde ficava a biblioteca da casa dos presidentes da república, no Palácio da Alvorada.

Era uma sala grande com o piso de madeira. As estantes, também de madeira, ficavam por todas as paredes do quarto. Exceto por uma, onde tinha uma mesa grande de trabalho com uma pintura abstrata, de um artista que não consegui identificar, logo atrás. Imaginei a Dilma trabalhando lá. Fiquei nervoso, será que o no meu dia a dia eu ia encontrar com a presidenta?

Cláudio me convidou para a ver a vista que a biblioteca tinha do jardim. Eu estava tão nervoso, que não tinha percebido que a outra “parede” da biblioteca era, na verdade, uma vidraça, que ia do chão ao teto, a vista era para a piscina e o jardim da casa. Lembro de ter comentado com o Cláudio que a sala aproveitava bem a luz natural  para leitura ao mesmo tempo que protegia os livros da luz direta do sol. Ele respondeu dizendo que Oscar Niemeyer havia previsto isso, bom… quem sou eu pra duvidar, certo?

Consegui relaxar a medida que fui absorvendo o espaço e a beleza do conjunto em que me encontrava. Cláudio aproveitou para me dar alguns toques de etiqueta. Não sabia que tinha tanta cerimônia para conhecer um chefe de estado, devia ter estudado mais, pensei.

Sentamos novamente no sofá e coisa de cinco minutos depois, entra a Dilma, acelerada, com três pessoas atrás dela, uma mulher falando no celular sobre horários de passagens de avião, um homem anotando freneticamente num moleskine preto e outra mulher, em silêncio, tirando foto de tudo que estava acontecendo.

Fiquei tenso. Tentava desviar meus pensamentos lembrando do livro sobre conversas de curiosidade “Uma mente curiosa” de Brian Grazer onde ele fala sobre a importância de ser uma pessoa curiosa e até onde a curiosidade pode nos levar? Tentei pensar na conversa com a presidente do meu país como uma oportunidade para crescer pessoalmente. De qualquer forma existe um nível de nervosismo, afinal era a presidente!

De repente aquelas pessoas que tinham entrado com a Dilma na sala, pediram licença e saíram aceleradamente pela mesma porta que haviam entrado. A fotógrafa, antes de sair, me desejou boa sorte, agradeci com a cabeça. Ouço a voz da Dilma “Pode vir Cláudio!”. Ele me deu um tapa nas costas, levantamos ao mesmo tempo e andamos em direção a mesa. Lembro de percorrer esse caminho olhando para o chão. Sentamos e só então direcionei meu olhar para a presidente.

Dilma cumprimentou Cláudio rapidamente e logo em seguida ele me apresentou.  A presidente ergueu a mão e eu prontamente a cumprimentei dizendo que era uma honra. Calei-me e Cláudio começou a falar da minha experiência profissional. Dilma ouviu pacientemente e quando Cláudio terminou ela agradeceu.

Em seguida a presidente pediu para Cláudio se retirar para poder conversar comigo a sós. Cláudio não havia me falado sobre esse momento, fiquei um pouco apreensivo. Mas ela apenas me perguntou se eu queria café. Eu aceitei e então começamos uma conversa que, para minha surpresa, foi super tranquila.

A primeira pergunta dela foi: o que você gosta de fazer nas horas vagas?

Hesitei por um momento, mas respondi: pedalar. Começamos a falar de bicicleta, competições, mobilidade urbana e outros temas que envolviam a bike. Eu esqueci que estava falando com a presidente do Brasil. Uma lição que eu aprendi com isso tudo é que somos todos seres humanos. As vezes a gente super valoriza uma pessoa por causa das coisas que ela conquistou e não por quem ela é.

Foi uma conversa super agradável e rápida. Terminamos a entrevista conversando sobre as leituras que estávamos fazendo. Lembro da Dilma dizendo que estava lendo um livro chamado “O poder do hábito” de Charles Duhigg, por coincidência eu também estava lendo esse livro, mas citei “Pai rico, pai pobre” de Robert Kiyosaki. Ela ficou curiosa e disse que gostaria de conversar mais sobre esse livro.

Cláudio apareceu logo em seguida para me buscar, a presidente agradeceu a minha presença e retribui a gentileza saindo silenciosamente da biblioteca. Quando a porta se fechou por trás de mim ouvi do Cláudio: parabéns! Você é o novo bibliotecário da presidente.

Dei um abraço no Cláudio e agradeci a oportunidade. Ela retribuiu educadamente e me informou que tinha uma pessoa querendo falar comigo, apontando para uma porta. Perguntei quem era mas ele não quis responder. Quando abri a porta era a fotógrafa que tinha me desejado boa sorte.

Continua…