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abril 4, 2017

Diário de um bibliotecário: balcão de referência

Nunca gostei de aparecer, sempre fui muito tímido e isso fez com que eu curtisse um pouco a solidão. Na escola e na universidade sempre fui um aluno do fundão de sala, conversava e de vez em quando era aquela zona, mas era só o professor falar meu nome que eu gelava, ficava vermelho e me calava pelo resto do dia. Meu amigos me sacaneavam, mas eu levava numa boa.

Como não poderia deixar de ser, minha timidez também se manifestou no trabalho. Como bibliotecário que sou, sabia que não ia ser problema achar um posto de trabalho em um lugar mais reservado. As bibliotecas tem ótimos lugares para se isolar. Eu ainda tinha a visão de um usuário. Na verdade, o bibliotecário tem diversas funções que exigem muito da sua capacidade de se relacionar com as pessoas e isso para uma pessoa tímida, pode ser uma pedra no sapato.

Logo no meu primeiro estágio, eu tive que entrar em uma escala de atendimento ao publico. Uma vez por semana eu tinha que ficar no serviço de referência da seção de multimeios da biblioteca do Senado. Normalmente, esse era o dia mais demorado da semana. Ter que falar com as pessoas o tempo todo, ser gentil sempre, mesmo que você esteja puto da vida e muitas vezes nem ouvir um “obrigado!” era de mais para mim. Acabei criando uma antipatia pelo serviço de referência.

Com o passar dos anos a gente vai aprendendo a lidar com as dificuldades da vida, muitas vezes é uma questão de necessidade. Eu passei a ter mais confiança e menos medo de me expressar. A vida deu voltas e cá estou eu trabalhando em uma biblioteca de uma instituição pública na seção de referência de um centro de documentação. Só que dessa vez eu to gostando. Não chega a ser a minha parte preferida, mas é onde o tempo tem passado mais rápido, ao menos para mim.

A gente fica muito exposto no balcão de referência, mas se você faz um bom trabalho essa exposição vira reconhecimento. As pessoas conhecem você, te chamam pelo nome e no final do você ano ganha um monte de presente. É como se você fosse um músico em carreira solo e no final do show a platéia lotada te aplaudisse em êxtase. As pessoas te cumprimentam e te olham com gratidão como se você tivesse tocado no coração delas. Acho que estou fantasiando de mais. O que importa é que o sentimento de fazer um bom trabalho e ser reconhecido por isso é gratificante.

Fotografia que ilustra este post por: Michelangelo Mazzardo Marques Viana

2 Comments on “Diário de um bibliotecário: balcão de referência

Rodrigo Soares
setembro 24, 2014 em 10:18 pm

De fato, para mim, um post grandioso. Tenho paixão pelo “serviço de referência”, atender o público com educação e presteza é uma satisfação. Não sou muito fã de “ficar atrás da lentes”: catalogando, indexando, classificando, etc… embora sejam serviços importantes para o desenvolvimento de uma biblioteca. O último parágrafo retrata uma realidade – não há prêmio mais valioso que o reconhecimento daquele que prestou auxílio – o usuário/leitor. Vivo essa sensação maravilhosa em meu ambiente de trabalho; a biblioteca pública – que serve a comunidade.

portaldobibliotecario
setembro 25, 2014 em 2:49 am

Valeu Rodrigo! Hoje eu também gosto muito da referência. Você se relacionar com as pessoas e ainda poder ajudar dá aquela sensação de dever cumprido.
abraço
Filipe

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